Role para continuar
Se tinha uma coisa que Marcin sabia fazer, era manter a cabeça baixa.
Em volta dele, vozes exaltadas somavam-se ao barulho de canecas de cerveja. De vez em quando, alguém gritava para fazer um pedido, e assim que a moeda aparecia na bancada do bar, a bebida ia para nas mãos do cliente. Seu serviço rápido e discreto o mantinha praticamente invisível e, assim, longe de qualquer confusão.
E sempre tinha confusão.
De várias formas. Um valentão querendo brigar. Uma negociação entre figuras encapuzadas que terminava em uma garganta esfaqueada. Ou, estranhamente, uma garotinha entrando pela pesada porta da taverna.
Marcin viu a garota avançar cantarolando em direção ao bar. Atrás dela, a porta se fechou, trazendo uma última rajada de vento frio para dentro da sala. A pancada atraiu os olhares perplexos dos que ainda não tinham notado sua presença.
A garota subiu em um banquinho, mal conseguindo ver por cima da bancada. Marcin notou seu cabelo ruivo, o brinquedo esfarrapado que ela segurava, a mochila rasgada nas costas, e o vestido mulambento de manga curta.
"Quer tomar alguma coisa?", perguntou ele.
A garota ficou em pé no banquinho e jogou o brinquedo no balcão, olhando as muitas garrafas nas prateleiras. Marcin viu que era um ursinho de pelúcia, agora desgastado de tanto amor. Dava para ver os remendos em seus membros após tantos anos de uso. Em algum momento da vida, ele tinha perdido um dos seus olhos de botão.
"Me dá um copo de leite, por favor?"
Marcin ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada. Ele foi até o final do bar e pegou uma jarra de cerâmica.
"Não está um pouco tarde para você andar sozinha por aí?", disse uma voz grossa.
Marcin suspirou. Confusão sempre atraía mais confusão. Ele tirou a jarra da prateleira e olhou novamente para o bar. Um homem grande ao lado da garota virou-se e a encarou com seu único olho sadio. Sentada na frente dele, a garota parecia uma pedrinha ao pé de uma montanha. Ele era uma pilha de músculos riscados por cicatrizes. As cordas, correntes e ganchos presos ao cinto, bem como a enorme lâmina pendurada nas costas, denunciavam claramente que ele era um caçador de recompensas.
A garota olhou para ele e abriu um sorriso. "Não estou sozinha. Tibbers está aqui comigo. Não é, Tibbers?" Ela levantou o ursinho, radiante.
O caçador de recompensas soltou uma gargalhada. "Com certeza seus pais devem estar a sua procura."
A garota colocou as mãos ao lado do corpo e olhou para baixo. "Acho que não", respondeu ela.
"Ah, mas eu acho que sim. Aposto que pagariam uma boa quantia para terem você de volta." Marcin quase podia ouvir as moedas tilintando na cabeça do caçador de recompensas, já calculando o prêmio pelo resgate da menina.
"Impossível. Eles já morreram." A menina voltou a sentar no banquinho, olhando fixamente para o olho de botão do ursinho.
O caçador de recompensas recomeçou a falar assim que Marcin colocou a caneca no balcão com firmeza.
"Seu leite", disse ele.
A garota se virou e sorriu para ele, desfazendo a feição desolada.
"Obrigada, senhor!"
Ela colocou o ursinho na mesa e virou-se para pegar algo na mochila. Marcin esperou, pronto para aceitar qualquer moeda que ela oferecesse como pagamento.
O que ele não esperava era a enorme bolsa que caiu fazendo barulho sobre o balcão.
Algumas moedas de ouro escaparam e uma rolou para a extremidade do balcão. Marcin a parou no reflexo, colocando um dedo sobre a fugitiva. Ele levantou-a lentamente do balcão, e seu peso e textura indicavam que era uma autêntica moeda noxiana.
"Ops!", riu a garotinha.
Marcin ficou subitamente com a boca seca. Ele estendeu a mão, tentando enfiar a moeda e a bolsa de volta na mochila da garota antes que alguém mais notasse—
"Essa bolsa aí é um tanto grande para uma garotinha tão pequena", bradou o caçador de recompensas.
"Foi o Tibbers que achou", disse a menina.
O caçador de recompensas bufou. "Não me diga?"
"Estava com o homem que me parou na estrada. Ele era muito malvado." A garota tomou um gole de leite, com os olhos voltados para o urso.
"Mas que pena…". O caçador de recompensas inclinou-se sem sair de seu banco e esticou o braço em direção à bolsa.
A garota olhou para ele com um sorriso divertido no rosto.
"O Tibbers comeu ele."
Por um instante, tudo parou. Depois, a gargalhada do homem tomou conta do lugar.
"Aposto que sim", berrou ele. Ele empurrou uma mão carnuda para frente, agarrando o brinquedo pela cabeça e puxando-o para longe da garota. "Esse monstrengo assustador."
"Solta o Tibbers!", gritou a menina, tentando pegar o ursinho. "Ele não gosta de ser puxado." O caçador de recompensas só fez rir ainda mais.
Marcin colocou a moeda no bolso e virou-se, caminhando sem ser notado para o fundo do bar. Ele até queria ajudar, mas não tinha sobrevivido até hoje ficando mais tempo do que o necessário nos lugares.
Ao ouvir a voz dela, ele ficou imóvel.
"Eu disse. Solta. O. Tibbers."
As palavras saíram irritadas e raivosas, abafando os outros ruídos. Ignorando toda a sua racionalidade, Marcin parou e olhou para trás. A garota estava em cima do balcão, olhando para o caçador de recompensas, soltando faíscas pelos olhos.
O caos tomou conta.
Um clarão de luz e uma explosão de calor emergiu da garota. Tarde demais, Marcin levantou os braços, gritando de dor. Ele tombou para trás, caindo sobre as prateleiras. Várias garrafas se quebraram quando ele tentou se proteger embaixo do bar, amaldiçoando-se pelo breve momento de hesitação. Os gritos dos homens e o som de madeira se quebrando seguiram-se a um urro flamejante. Um som gutural e irreal reverberou pelo ar, sacudindo seus ossos. Marcin rastejou, ainda meio cego, para onde ele esperava que as portas da cozinha estivessem. Em volta dele, os gritos aumentaram, e depois cessaram com um estrondo.
Pela segunda vez naquele dia, Marcin ignorou todas as suas habilidades de evitar problemas e espiou pela borda do bar.
Uma besta gigantesca surgiu, desenhada contra a luz do fogo. Linhas grossas prendiam seus membros ao tronco, como pontos de costura. Com um sobressalto, Marcin percebeu que a fera em si ardia, ilesa às chamas famintas que dançavam em seu pelo. Em suas garras, pendurado pela cabeça, estava o corpo ensanguentado do caçador de recompensas, como um boneco de pano nas enormes patas do monstro.
Diante dele, a menininha estava envolta em fogo.
"Você tem razão, Tibbers", disse ela. "Ele também não gostou de ser puxado."
Marcin olhou em volta, aterrorizado. Por toda a taverna, cadeiras e mesas caídas estavam em chamas, levantando uma fumaça escura e espessa. O cheiro de sangue e carne queimada inundou seu nariz, e Marcin sufocou uma tosse, com o estômago revirado.
A fera se virou e olhou para ele.
Um gemido escapou dos lábios de Marcin. Ele olhou para o abismo reluzente dos olhos do urso e aceitou seu fim iminente.
Um risinho ecoou sobre o crepitar das chamas.
"Não se preocupe", disse a garotinha, aparecendo por trás do monstrengo. "O Tibbers gostou de você."
Marcin só olhava, petrificado, enquanto a garota saltava e pulava pela taverna em chamas, com a fera atrás dela, destruindo tudo. Imóvel, ele viu a fera arrancar a pesada porta das dobradiças. E permaneceu boquiaberto quando a garotinha se virou pela última vez, com um doce sorriso no rosto.
"Obrigada pelo leite", senhor.
E depois a garota saiu andando pela noite gelada, enquanto a taverna desmoronava.