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"Não era uma tempestade. Era um espírito", disse o pescador, ainda assustado com o naufrágio do qual ele quase não conseguiu sobreviver duas noites atrás. O homem contou que seu barco de pesca foi afundado por uma criatura, grande como uma casa e rápida como o vento.
Shen ouviu o conto, ponderando silenciosamente os fatos como eram apresentados.
"Mostre-me onde aconteceu", disse Shen.
O homem o levou até uma praia na enseada, onde uma equipe de aldeões trabalhava para recuperar os corpos afogados dos marinheiros. Shen ajoelhou-se para examinar um pedaço dos escombros. Os cortes na madeira eram profundos e brutais, obra de garras poderosas.
"Quantos mortos?" Ele perguntou.
"Todos menos eu... Seis", respondeu o pescador.
Os espíritos são fortes, pensou Shen, procurando por entre os escombros para encontrar mais evidências.
Finalmente, na ponta lascada de um pedaço do casco, ele encontrou: um pequeno tufo de cabelo branco. A maioria das pessoas o teria ignorado, ou caso tivessem visto, eles nunca acreditariam que uma criatura que pudesse quebrar um navio ao meio poderia deixar para trás algo tão delicado. Mas Shen já viu cabelo assim antes. Quaisquer dúvidas que ele tinha sobre a veracidade do conto do pescador sumiu quando ele viu o pequeno tufo de cabelo prateado dissover-se ao seu toque.
"Um demônio", Shen afirmou. "Vocês devem ter passado pelo caminho dele".
O pescador confirmou assustado. Espíritos de todos os tipos eram conhecidos por juntar-se com o mundo físico, especialmente em Ionia, onde a barreira entre os reinos era fina e passável. Os planos etéreo e material estavam em contato constante, passando pacificamente um pelo outro como óleo na água.
Como o Olho do Crepúsculo, era dever de Shen caminhar por entre os mundos, assegurando que nenhum lado sobrepujaria o outro. Para humanos, ele era um fantasma, sumindo no espaço entre respirações para reaparecer a muitas milhas de distância. Para os espíritos, ele era um humano, de carne e osso que nunca deveria se aventurar nos reinos etéreos.
Ele ajoelhou-se na praia para examinar um dos corpos que foram recuperados. O homem havia sido cortado ao meio, logo abaixo das costelas. O que havia sobrado das entranhas estava pendendo de um torso pálido e inchado.
"Não precisa se preocupar. Devo enfrentar o monstro antes do anoitecer", disse uma voz vinda de trás.
Shen virou-se para ver um homem sagrado enviado pelo templo local. Alguns acólitos estavam ao seu redor, carregando uma variedade de amuletos e óleos místicos. Eles estavam começando um ritual de purificação para expulsar quaisquer perturbações espirituais na área. O homem sagrado encarou Shen como se estivesse medindo seu valor.
"Podemos contar com sua ajuda, senhor?" O homem perguntou.
"O equilíbrio será restaurado", disse Shen confirmando com a cabeça.
Ele se separou do homem sagrado e continuou a seguir o rastro fraco do cabelo branco. Ele pensou nos navegadores mortos e no preço que ele deveria cobrar do demônio. As palavras de seu pai ainda soavam verdadeiras: "A parte mais difícil é encontrar o ponto de equilíbrio em todas as coisas". A neutralidade verdadeira, o centro preciso de todas as forças em trabalho no mundo – é isso o que o Olho deve ser capaz de distinguir.
Afirmando que o equilíbrio era uma batalha por si só. Para realizar a tarefa, Shen carregou duas espadas em suas costas. Uma era um sabre de ferro ioniano que poderia dividir uma pessoa em um golpe. A outra era uma espada de energia arcana pura. Ela era usada para cuidar de espíritos e foi transmitida por muitas gerações dos ancestrais de Shen. Ele matou incontáveis demônios, fantasmas, assombrações e fadas com ela durante os anos, e esperava levar mais um antes que o dia acabasse.
Finalmente, Shen foi até uma entrada deserta, quieta e sem atividade humana alguma. Em um banco de areia do mar está o demônio, com sua elegante capa reluzente brilhando no entardecer. A criatura crescia enquanto repousava, satisfeita por ter consumido a essência mortal de suas vítimas. Shen avançou pelos juncos, silenciosamente aproximando-se do demônio dormente. Ele conseguia ver sua enorme caixa toráxica expandir e contrair com suspiros profundos e descansados. Quando ele estava a alguns passos do banco de areia, ele sacou sua espada espiritual, preparando seu ataque.
De repente, um som angustiante parou sua mão. Era um grito fantasmagórico e estridente que parecia emanar do ar. Ele parecia familiar, mas antes que Shen pudesse identificar o barulho, ele o ouviu novamente. E de novo. E de novo, culminando em um coral de gritos de sangue coagulado. Aqueles eram os gritos de espíritos a morrer. Os olhos de Shen voltaram-se imediatamente ao demônio que agora começava a despertar de seu sono. Shen olhou novamente para sua espada espiritual, calmamente ponderando suas opções. Ele então juntou as mãos com força, cuidadosamente focando seu ki, e desaparecendo em um turbilhão de energia crepitante, deixando o demônio sozinho em seu banco de areia.
Um momento depois, Shen reapareceu no local dos escombros. Por toda a parte, poças fervilhantes de gotas pretas evaporavam no ar, juntamente com o fedor de terror que pairava no ar.
Shen contou as poças negras que dissipavam, cada uma com os restos de um espírito abatido. Seu cálculo foi interrompido quando o homem sagrado entrou na clareira com seus acólitos. Um dos homens segurava um cordão de linho e prata. Preso à outra ponta estava um espírito menor – de um diabrete insignificante. Ele lutava contra o asfixiar de sua coleira. Ele gemeu quando viu os restos de seus irmãos.
"Você se importa de se livrar deste aqui?" O homem sagrado pediu a Shen, casualmente, como se estivesse oferecendo a ele uma tigela de sopa no jantar.
Shen olhou para as poças pegajosas e fervilhantes onde seres poderosos do outro mundo estavam momentos atrás. Então voltou seu olhar para o padre e o diabrete que sofria.
"Sinto muito por isso, Sua Santidade", ele disse. Ele colocou sua espada espiritual de volta na bainha e sacou seu sabre de metal. Não era a espada que ele esperava usar aquele dia.